ENTREVISTA COM LUÍSA TIMÓTEO – Presidente da Associação Cultural Coração em Malaca

 Entrevista com Luísa Timóteo

Luísa Timóteo

É já do conhecimento de todos os seguidores do nosso blogue que, desde há pouco mais de um ano, mantemos uma relação estreita com Malaca, nomeadamente com o “Portuguese Settlement”, ou seja, com o Bairro Português daquela cidade da Malásia, onde habitam cerca de 3000 luso-descendentes. Esta relação concretiza-se através de um intercâmbio, proporcionado pela Associação “Korsang di Melaka”, “Coração em Malaca” que, apesar da distância e do trilho difícil dos caminhos, apostou no apoio àquela comunidade de origens portuguesas (Afonso de Albuquerque, 1511), numa vontade firme de ajudar à manutenção e estudo da língua portuguesa e do português antigo de Malaca, à preservação da cultura de raízes portuguesas, manifestada através da preservação da religião católica, das festas religiosas e populares, do folclore e da música de influência lusa. Partilhar com amor a Portugal é a expressão certa para definir esta relação. Também nós partilhamos desse amor à História, à Língua e à Cultura Portuguesa.

Entrevistámos Luísa Timóteo, Presidente da Associação Cultural Coração em Malaca, para saber o que a moveu e o que a move, a ela e a todos aqueles que, lá e cá, se esforçam por manter esta relação de amor.

    Nota: Entrevista conduzida pela professora Madalena Canas. Nas respostas a entrevistada seguiu o novo acordo ortográfico.

 CR – O que a levou, pessoalmente, a criar a Associação Cultural Coração em Malaca?

LT – As razões da criação da Associação Cultural Coração em Malaca, resultaram do desejo

Assembleia Geral da ACCM

de visitar Malaca em homenagem ao meu pai, que sempre nos falou da bravura dos marinheiros e da coragem da travessia do mar desconhecido. Dizia meu pai que Afonso de Albuquerque chegou ao outro lado do mundo em 1511, a Malaca. Assim no regresso a Portugal, em Novembro de 2005, depois cumprida uma missão de três anos em Timor – Leste ao serviço da Cooperação Portuguesa, desviei a rota e fui a Malaca, na companhia de duas amigas que me acompanharam sempre, Maria Cristiana Casimiro e Maria João Liew, ambas fundadoras e membros da Direção, responsáveis pela Delegação da Associação em Kuala Lumpur/Malásia. A minha presença no Bairro Português de Malaca foi marcada pelo sentimento de que aquele lugar me pertencia também. Tantas coisas em comum, tantas semelhanças de tradições, a presença da nossa cultura e língua de Camões. A saudade de todo o nosso passado foi para mim um recado. O dever de honrar esta memória. Prometi que jamais se deixaria de falar nos “Portugueses de Malaca”, expressão que ouvi e assim são conhecidos e tratados na Malásia.

 CR – Qual é o objectivo dessa Associação? Tem muitos participantes?

 LT – A Associação, entidade civil e de direito privado, sem fins lucrativos, de interesse público, histórico, cultural, científico, educativo e turístico, tem por objeto manter o “legado português e luso descendente”, e a promoção da relação histórica, cultural e turística.

A ACCM, criada em Torres Vedras em 12 de Junho de 2008, antes de Malaca ser nomeada pela Unesco património da humanidade, conquistou um universo de pessoas, quer portuguesas, quer doutras nacionalidades, que se manifestam através dos nossos sites: www.accemkdim.com do e.mail korsangdimelaka@gmail.come dos blogues www.povos-cruzados.blogspot.com e  www.malaca.portugal.blogspot.com.

É de realçar que toda esta dimensão só foi possível com o apoio do Instituto Camões, Fundação Oriente-Museu, empresa Logoplaste,  S.T.A – Sociedade Torreense de Automóveis, S.A., Painel do Regedor / Bairro Português de Malaca, REN-Rede Eléctrica Nacional, S.A, Sociedade de Geografia de Lisboa, Sociedade Histórica-Palácio da Independência de Lisboa, Museu Militar de Lisboa, Casa das Cenas-Educação pela Arte em Sintra, Autarquias: Câmara Municipal de Torres Vedras, de Sintra, de Freixo Espada à Cinta, de Póvoa de Varzim, Juntas de Freguesia: de Lavos – Figueira da Foz, de São Martinho – Sintra, de Ponte do Rol – Torres Vedras,  Associação Cultural e Festiva “Os Sinos da Sé – Braga, ao Grupo Folclórico de Professores de Braga, Agrupamento de Escolas do Paião – Figueira da Foz, Clube “Raízes” da referida Escola, Escola Secundária Henriques Nogueira em Torres Vedras, Revista Raia Diplomática, RTP1, Associação – Movimento Internacional da Lusofonia, Associação dos Colóquios da Lusofonia, Grupo Folclórico Poveiro – Póvoa de Varzim, Portugal dos Pequeninos, em Coimbra, Comissão do Grupo Parlamentar das Comunidades e de todos os ASSOCIADOS, cerca de 500, que apoiam e divulgam esta já grande Associação “Korsang di Melaka”, bem como o Projeto “POVOS CRUZADOS: FUTUROS POSSÍVEIS”,  a decorrer no Bairro  Português de Malaca com a valiosa colaboração da Bolseira do Instituto Camões Dr.ª Cátia Bárbara Candeias e do Mestre José Costa Machado.  

 CR – O que tem feito em prol da prossecução desses objectivos (ou seja, qual o trabalho que tem sido desenvolvido pela Associação em prol da preservação das raízes linguísticas e culturais em Malaca).

 LT – Referio projeto POVOS CRUZADOS: FUTUROS POSSÍVEIS englobando todas as actividades da Associação, quer realizadas a nível nacional, quer internacional. Realçando a ida de “dois embaixadores” para o Bairro Português de Malaca em 3 de Setembro de 2009, Mestre Costa Machado e Dr.ª Cátia Candeias, com o propósito de apoiar a comunidade a vários níveis, quer aos grupos de danças e cantares do folclore, quer a nível do ensino da língua de Camões,e preservação do crioulo de origem portuguesa (Kristang), bem como diversas actividades de apoio comunitário. 

Ambos conquistaram, com o seu saber estar e paixão pelo projeto que os esperava, a simpatia de todos os Portugueses de Malaca, que em conjunto dão a conhecer ao mundo através da comunicação social e Net. A nossa delegação em Kuala Lumpur, sempre representada em todos os atos, muito tem contribuído com o sucesso do projeto.

Por cá a Associação, enaltecendo os Associados Dr. Aráujo da Costa e Comendador António Fernandes de Barros, co-patrocinadores das viagens a Portugal dos dois grandes líderes dos grupos de dança e cantares de folclore de Malaca, que sempre sonharam conhecerem Portugal como o berço da sua Nação, senhores NOEL FÉLIX, em Novembro de 2009 e MANUEL LÁZAROO (Papa Joe), em Maio de 2010.

Com Manuel Lazaroo no Palácio da Independência

A Associação promoveu visitas, debates, encontros, palestras pelas mais diversas localidades do país, com a ajuda de entidades privadas, associados e amigos com o coração em Malaca. Dando a conhecer um passado presente que não queremos, nem deixamos, morrer. Estes encontros, onde estes líderes falaram e cantaram em português, foram acompanhados de discursos e palavras de carinho que nos honram e de que nos devemos orgulhar.

Para além destas iniciativas a Associação está presente em muitos eventos, como convidada ou por desejar comparecer. Atenta também aos acontecimentos relevantes das desejadas comemorações dos 500 anos da chegada a Malaca, espera-se que seja este o ano em que se estabeleça o ACORDO DE COOPERAÇÃO entre Portugal/Malásia-Malásia/Portugal.

 CR – Tem contado com a colaboração das pessoas e de instituições públicas e privadas? De que modo?

 LT – A Associação está em permanente contato com as entidades que nos apoiam, quer dando as informações do decorrer do Projeto “POVOS CRUZADOS”, quer das muitas mensagens recebidas de apoio e estímulo. Comunicando também as dificuldades financeiras que nos impedem de realizar mais ações. Nomeadamente a nossa presença em Macau em Abril deste ano, no XV Colóquio da Lusofonia, como congressistas, para o qual contamos já com o apoio do alojamento pelo Instituto Português de Macau. Ficando cada viagem a 970,00€, para 2 pessoas são necessários 1.940,00 €. Contamos e esperamos apoio do mecenato. Esta presença é importante para divulgar em Macau (vizinha de Malaca) o trabalho desenvolvido para que as comunidades lusofalantes abram portas a projetos culturais e universitários para os jovens portugueses de Malaca.

Cátia Candeias com o Pres. Soc. Portuguesa de Geografia

CR – Fale de momentos e aspectos que ache de relevo na acção da Associação.

 LT – Abordei a visita dos Líderes a Portugal, os fatos e as realidades vividas são de tanta emoção que penso, cada visita e cada momento devem ser descritos um de cada vez, o que sugiro que me seja dada a oportunidade de ir escrevendo ao longo do tempo. Também uma forma de falar de Malaca e manter a curiosidade. Este ano é importante falar mais deste tema: MALACA. 

 CR – Como têm divulgado as actividades da Associação?

 LT – Temos feito a divulgação através da escrita (cartas enviadas), pela Net e dando informações, quer solicitadas ou não, aos associados através do nosso site, dos acontecimentos e das necessidades de apoio e divulgação. Tendo em conta que esta Associação apesar de ser criada em Portugal é de âmbito internacional.

 CR – O que acha deveria fazer-se, ou continuar a fazer-se, para apoiar os luso-descendentes de Malaca na preservação das raízes portuguesas?

 LT – Tudo que esteja ao alcance, para que se estabeleça urgentemente o ACORDO DE COOPERAÇÃO, e que seja publicado em Diário da República este ano. É a principal ajuda aos Portugueses de Malaca para a continuação da sua sustentabilidade. Este trabalho, iniciado pela ACCM, só pode continuar se este acordo se estabelecer oficialmente.

 CR – Está a pensar em algo de especial para a Comemoração dos 500 anos da presença portuguesa em Malaca?

 LT – Que as comemorações se realizem a nível de Estados. Mas com Sucesso, este depende do referido ACORDO. Sonho e ACREDITO.

 CR – O que acha importante divulgar e que mensagem quer deixar aos alunos, professores, público em geral?

 LT – Que as escolas ALUNOS, PAIS, PROFESSORES vejam neste ACORDO uma projeção de futuros possíveis, para o engrandecimento das relações culturais, históricas e de cooperação que passam pela possibilidade do intercâmbio de cursos, mestrados, doutoramentos a nível dos dois países, onde esta habilitações sejam reconhecidas em prol do maior conhecimento que conduz a um mundo de PAZ e de HUMANIDADE.

Acrescento que seria muito bom o reforço desta Associação, que já deu provas de o merecer, que com ética se afirme e seja enviado ao Presidente da Assembleia da República, ao Presidente da República, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, petição da realidade do ACORDO DE COOPERAÇÃO.

Muito obrigada. Um abraço de amizade.
Luisa Timóteo
Presidente da Direção
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Clube de Divulgação e Defesa do Património
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13 respostas a ENTREVISTA COM LUÍSA TIMÓTEO – Presidente da Associação Cultural Coração em Malaca

  1. Manuel Ribeirinha diz:

    Espero que Deus ajude a Dona Luísa Timóteo neste seu projecto. Do seu amigo Manuel Ribeirinha.

    P.S.: Contribuirei, da forma que puder, para que este Sonho seja realidade.

    • luisa Timóteo diz:

      Meu amigo Manuel Obrigada pelas palavras de carinho e amizade.
      Esperamos que este projeto em prol do património português espalhado no mundo, concretamente em Malaca onde os valores humanos deixados são a razão do nosso trabalho e desta já grande Associação.
      Um forte abraço
      Luisa Timóteo

  2. José Luís diz:

    Parabéns a D. Luísa Timóteo pela sua iniciativa e perseverança em não deixar apagar um testemuho impressionante da influência portuguesa em Malaca.
    Espero que neste ano em que se comemoram os 500 anos de presença portuguesa em Malaca consiga o acordo desejado entre Portugal e a Malásia.
    Um forte abraço e força
    José Luís

    • luisa Timóteo diz:

      Caro amigo e Associado

      Obrigada pelo o apoio e pelo trabalho que também ao nosso lado tem desenvolvido pela causa de Malaca. Sabemos que ficou no seu coração.

      Bem haja

      Um abraço
      Luisa Timóteo

  3. Muitos parabéns por tudo quanto têm feito! Mereceriam uma maior atenção de Portugal! Votos de sucesso!

    • luisa Timóteo diz:

      Caro amigo de sempre

      Todo o nosso trabalho já valeu a pena. Um objetivo da Associação é falar do património deixado e continuado pelas comunidades luso descendentes, nomeadamente os portugueses de Malaca.
      Vamos conseguir basta acreditar. Nós acreditamos.

      Um abraço fraterno

      Luisa Timóteo

  4. Arlindo Oscar Araújo Gomes da Costa diz:

    Parabens Caríssima Doutora Luisa Timóteo, pelo vosso esforço em manter viva a chama e a influência portuguesa em Malaca. Vosso esforço merece sempe ser lembrado e louvado!
    Gomes da Costa.

    • luisa Timóteo diz:

      A Korsang di Melaka também agradece a SUA valiosa colaboração.
      A visita dos grandes líderes Noel Félix e Manuel Lazaroo, testemunharam a nossa presença portuguesa apesar da distância e dos 500 anos passados.
      Muito obrigada pelo apoio a esta já grande Associação.
      Um forte abraço

      Luisa Timóteo

  5. Parabens prezada amiga Dra. Luisa Timóteo, pelo vosso esforço em manter viva a chama e a influência portuguesa em Malaca.
    O vosso amor merece sempre ser lembrado!
    Gomes da Costa

  6. Madalena Canas diz:

    Obrigada a todos pelo interesse manifestado por Malaca, pela entrevista a Luísa Timóteo e por visitarem o site do Clube Raízes – Viagens pela História e pelo Património, da Escola Dr. Pedrosa Veríssimo – Paião – Figueira da Foz, que também se esforçará por divulgar e apoiar as acções em prol da comunidade portuguesa de Malaca e da preservação da nossa Língua e da cultura de raízes lusas, que são marcas da nossa História, da multiculturalidade que ajudámos a desenvolver e um valor da lusofonia que devemos cuidar para as gerações futuras.
    Se quiser colaborar connosco, envie as suas notícias e os seus comentários. Estamos disponíveis para essa colaboração. A bem da preservação das marcas portuguesas por esse mundo fora.
    Um muito obrigada especial à Luísa Timóteo e força para continuar, com a certeza da nossa colaboração.
    A professora,
    Madalena Canas
    (e-mail: pessoalscan@gmail.com)

    • luisa Timóteo diz:

      Com a nossa gratidão aos alunos do “Clube Raízes” e sua coordenadora Professora Madalena Canas, à Escola Dr. Pedrosa Veríssimo, Paião – Figueira da Foz pelo intercâmbio com o projeto POVOS CRUZADOS:FUTUROS POSSÍVEIS.
      Bem hajam pela continuidade desta amizade e cooperação

      Um abraço da Korsang di Melaka

  7. Zélia Torres diz:

    Dra. Luisa Timóteo,
    O meu reconhecimento pessoal e profissional por ter tido o previlégio de a conhecer, ser colega de trabalho e pincipalmente por ter como amiga uma pessoa tão lutadora e empenhada nas causas que se compromete realizar.
    Parabéns
    Zélia Torres

    • luisa Timóteo diz:

      Obrigada Zélia pela amizade que nasceu entre nós na terra do Sol Nascente, e no mesmo local de trabalho “Escola Portuguesa de Díli”, onde nos entregamos com alma e deixamos o coração.
      O mesmo sentimento nos uniu ainda mais, depois de visitarmos Malaca e desde sempre Associada Fundadora desta já grande ASSOCIAÇÃO.
      Um forte abraço
      Luisa Timóteo

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