MALACA 500 ANOS – Entrevista com Papa Joe

Papa Joe na Escola do Paião

Não deixe de ouvir a emocionante entrevista feita, a nosso pedido, pela Dr.ª Cátia Bárbara Candeias a Papa Joe, o luso-descendente que nos visitou no ano lectivo anterior.

A entrevista mistura Português, Português de Malaca e Inglês. De qualquer modo conseguirá entendê-la sem grande dificuldade. (Apesar disso, em baixo tem a tradução completa).

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi em Maio que Manuel Bosco Lazaroo, Papa Joe, luso-descendente de Malaca, esteve na Escola Dr. Pedrosa Veríssimo – Paião, numa actividade de apresentação e divulgação da Associação Cultural Coração em Malaca. Foi a primeira vez, e até agora única, que Papa Joe esteve no país que também considera seu e tem no coração, tal como os cerca de 3 milhares de descendentes de portugueses que vivem no Portuguese Settlement de Malaca, ou seja no Bairro Português.

Malaca, cidade da Malásia, foi conquistada por Afonso de Albuquerque em 1511, facto que perfaz este ano o seu 500.º aniversário. Os portugueses estiveram naquela cidade do Oriente durante 130 anos e, desde então, uma comunidade luso-descendente tenta manter as suas raízes portuguesas, nomeadamente continuando a falar um português antigo, preservando a história, o folclore, a gastronomia e cantando canções de origem portuguesa.

Devemos orgulhar-nos desta comunidade, que tanto amor demonstra a Portugal, apesar das poucas ajudas que tem, nomeadamente a nível oficial. Devemos realçar o trabalho e as acções levadas a cabo pela Associação Cultural Coração em Malaca, em prol desta comunidade e da preservação da língua e da cultura portuguesas, nomeadamente do que tem sido feito pela bolseira do Instituto Camões, Cátia Bárbara Dias Candeias, que também esteve na nossa escola a apresentar o Projecto Povos Cruzados – Futuros Possíveis.

 Enviámos as perguntas para a entrevista ao Papa Joe. A Cátia entrevistou-o no seu restaurante, no Bairro Português de Malaca. Aos dois agradecemos e prometemos continuar a divulgar esta causa e a colaborar do modo que nos for possível.

Se também pretende colaborar, divulgue e colabore com o Projecto Povos Cruzados – Futuros Possíveis e com a Associação Cultural Coração em Malaca, nomeadamente tornando-se sócio. Poderá fazê-lo a partir daqui.

 

 

Entrevista com Papa Joe

(Tradução completa em Português… de Portugal)

 C- Olá, Madalena, estou aqui com Papa Joe no seu Restaurante.

Queremos mandar um abraço para a Escola do Paião e para todos os alunos.

Vamos começar a entrevista com o Papa Joe.

 C- Papa Joe, qual é o seu nome?

PJ – Eu chamo-me Manuel José Bosco Lazaroo.

C – Em que dia nasceu?

PJ – Nasci no dia 14 de Março de 1941.

C – Nasceu em Malaca?

PJ – Sim, nasci em Malaca, no Bairro Português.

C – Qual era o nome do seu pai?

PJ – O meu pai chamava-se Jorge Bosco Lazaroo.

C – E a sua mãe?

PJ – Teodora Lazaroo.

C – O Sr. Foi a Portugal no ano passado?

PJ – Sim, em Maio.

C – Foi à Figueira da Foz, escola do Paião. Queremos perguntar-lhe o que gostou mais na Escola do Paião e o que mais o impressionou quando lá foi, com a Associação Cultural Coração em Malaca?

PJ – Quando fui à escola do Paião, o Sr. Padre Manuel benzeu-me, e isso foi uma grande alegria para mim.

C – E o que pensa da Conferência que deu na escola, porque cantou cantigas em Português de Malaca na escola, com toda a gente, com a Madalena, com os professores. O que sentiu?

PJ – Eu senti-me muito feliz por cantar para eles. Em Malaca não ha escola nem livros. Desde os doze anos que aprendi essas cantigas de Portugal. Eu canto fado, de Santa Marta do Minho, Bailinho da Madeira, Ó minha Rosinha… muitas, mais de 70 cantigas portuguesas que eu canto em Malaca.

C – O Sr. Lembra-se de quando chegou à escola, o que é que eles lhe disseram?

PJ – Selamat Datang. (Bem-vindos)

C – Lembra-se de tirar fotos com a Madalena.

PJ – Sim, lembro-me. Senti-me muito feliz, porque não estava à espera disso.

C – O que faz de si um Português de Malaca? Tradições passadas de geração em geração, como é que essas tradições chegaram até si?

PJ – As tradiçoes em Malaca sao transmitidas pelo pai e pela mãe aos filhos. Aprendi também com o Padre Manuel Sendim, de Trás-os-Montes e com o Padre Joaquim Pintado, que trouxeram todas essas cantigas portuguesas para Malaca. A 1.ª cantiga que eu aprendi foi o Vira: “Meninas vamos ao Vira, que o Vira é coisa boa…”. Também aprendi mais cantigas com o Padre Sendim, aprendi o fado. O fado de Coimbra, Coimbra, Rio Mondego, Samaritana, Santa Cruz, passarinho da Ribeira, todos esses fados.

C- E o seu filho sabe cantar?

PJ – Sim, ele sabe cantar. Ele canta 15 ou 20 cantigas.

C – Então o seu pai e a sua mãe falavam português em casa e o Sr. aprendeu com eles?

PJ – Sim, aprendi com os meus pais. O meu filho aprendeu português na Universidade de Macau.

C – Como é a vida no Bairro Português e como é que as pessoas preservam as tradições portuguesas? Como é a sua vida aqui no Bairro Português?

PJ – A nossa vida aqui é boa, nós temos o coração em Portugal, aqui cantamos o Hino Nacional.

C – Ah, o Hino Nacional. Quer cantá-lo? Pode cantar.

PJ – Heróis do mar… (Cantou o Hino Nacional).

C – Bom, bravo!

C – Como é que as pessoas preservam as tradições aqui? Da música, da língua. Como acha que as preservam?

PJ – Preservamos a língua ensinando-a às nossas crianças. Há 500 anos foi a conquista de Portugal em Malaca, faz este ano 500 anos. Deveria ser uma grande celebração. Portugal deveria fazer qualquer coisa para essas comemorações em Malaca.

C – Espero que sim…. Nunca devemos desistir…

C – O que sentiu quando foi a Portugal?

PJ – Senti-me muito feliz, não esperava ir a Portugal. Fui a Fátima, fui a uma casa de fado – Capela – em Coimbra.

C – E quer dizer-nos como foi possível ir a Portugal?

PJ – O Sr. Araujo da Costa, que mora no Brasil, senhor da Póvoa do Varzim, pagou para eu ir a Portugal.

C – E a 1ª impressão, quando lá chegou? O tempo, é muito frio. Diferenças. Quem estava lá para o receber?

PJ – Sim,  o tempo é muito frio.

A Bárbara, a sua mãe, a Srª Luísa, Jorge e Pedro.

C – E como se sentiu, que emoções sentiu? Chorou de alegria?

PJ – Sim…

C – E agora, aqui em Malaca, que recordações guarda da sua viagem a Portugal. o que aprendeu? Alguma coisa o desapontou? Algo que lhe agradou?… Diga-me.

PJ – Portugal é um país muito bonito e as pessoas são muito simpáticas (amistosas), passeei por todo o lado, Sintra, Paião, Freixo de Espada à Cinta, Braga, onde encontrámos o José e vi o Grupo dele.

C – Foi a alguns museus?

PJ – Visitei o Museu do Oriente e reparei que lá havia coisas de Myanmar, da Tailândia, da Índia, mas não havia lá nada de Malaca. E eu perguntei à menina se não havia lá nada de Malaca. Portugal governou Malaca 130 anos, Portugal governou Macau 50 anos. Macau tinha mapa e Malaca não tem!

C –O que acha que deveria continuar a fazer-se para manter as raízes portuguesas em Malaca? O que pensa que as pessoas deveriam fazer, Portugal, todos os que aqui vivem, apoios, o que acha que podemos fazer para preservar a nossa identidade e para conseguir mais apoios para fazer mais coisas, mais celebrações…?

PJ – Em Malaca, no Bairro Português, temos muitos músicos, jovens, que tocam guitarra e sabem muito bem música. E vão a muitos lugares, Coreia, Japão, para cantar, mas Portugal podia levar alguns deles a Portugal para estudarem música. Eu acho que eles podiam ir lá aprender e depois voltavam e ensinavam música às pessoas daqui, crianças e jovens, Isso é uma das coisas que eu acho que se podia fazer. Os músicos portugueses são bem-vindos aqui a Malaca.

C – O que acha da minha presença aqui no Bairro Português, e o trabalho que eu faço para a preservação da cultura, da língua, das tradições, o que pensa sobre isso?

PJ – Temos aqui a Bárbara, de Torres Vedras. Ela está aqui a ensinar aos jovens a língua e a cultura de Portugal. E isso e bom, aprender e falar em portugues.

C – Acha que isso é importante?

PJ – Isso é importante, a Bárbara ensina as criancas a falar portugues e toda a gante gosta muito do trabalho que ela desenvolve com a comuniadde.

C – quer dizer alguma coisa à Madalena Canas ou à escola do Paião, que ache que é importante para eles nesta entrevista? A sua opinião sobre qualquer coisa, sobre a cultura, alguma coisa que queira dizer sobre a sua visita a Portugal, se quer voltar a Portugal, sobre o apoio que a Associação Coração em Malaca lhe dá… Se quiser agradecer a alguém…

PJ – Envio mensagem para todos os estudantes e professores da escola do Paião. Venham a Malaca, muitas pessoas vêm a Malaca fazer estudos como a senhora Margaret Sarkissian da América, veio para estudar sobre a música portuguesa, agora ela é professora na universidade. O Gabriel também veio a Malaca. Porque não vêm a Malaca? Malaca é um bom lugar para as pessoas virem, para estudar. Aqui pode-se estudar a arquitectura, música portuguesa, danças portuguesas e a língua.

C – Pensa que é uma oportunidade para os estudantes do Paião para virem cá e aprenderem mais sobre a língua e outros aspectos. Então quer convidá-los a vir cá?

PJ – sim.

C – Obrigada, Madalena, pela oportunidade.

Quer dizer alguma palavra à Madalena?

PJ – Madalena, obrigada por me ter recebido quando estive em Portugal.

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Sobre clube11raizes

Clube de Divulgação e Defesa do Património
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6 respostas a MALACA 500 ANOS – Entrevista com Papa Joe

  1. luisa Timóteo diz:

    Que bom recordar a visita do “Papa Joe” a Portugal. Momentos vividos
    orgulhosamente pela dimensão do que “é belo e grande o Mundo Português”.
    Obrigada ao Clube Raízes e sua coordenadora professora Madalena Canas, à bolseira Cátia Candeias que tão bem orientaram este trabalho, divulgando o projeto Povos Cruzados e MALACA OPULENTA NOMEADA PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE.
    Saibamos todos reconhecer a importância de comemorar os 500 anos da chegada dos Portugueses a Malaca.
    A Escola do Paião deu um exemplo.Fica escrito, não esquece.
    Bem hajam!
    Presidente da Direção
    Korsang di Melaka

    • Obrigada, D. Luísa Timóteo.
      Admiramos o trabalho da Associação Korsang di Melaka e a disponibilidade para colaborar connosco.
      Fazemos votos que os nossos alertas possam trazer os seus frutos, para bem dos Portugueses de Malaca e de todos aqueles que se esforçam por fazer de Portugal um país grande, que seja capaz de apoiar a preservação das raízes que portugueses ilustres espalharam por esse mundo além. Das quais nos devemos orgulhar e responsabilizar pela sua manutenção, para bem de todos os que falam e sentem em Português.

      Madalena Canas e Clube Raízes

  2. Parabéns pelo maravilhoso trabalho que estão a fazer! E obrigado, como Português do Mundo!
    Um abraço aos amigos de Malaca! Vocês são mais portugueses do que os que nascem em Portugal!

    • Caro Ângelo, obrigada pelas suas palavras.
      Como Português do Mundo, caso queira, vá mandando notícias. Continuaremos a esforçar-nos por divulgar e alertar para o que é importante fazer em favor das raízes portuguesas por esse mundo fora, para que as gerações futuras possam conhecer e orgulhar-se da nossa História, coisa que, às vezes, tantos esquecem tão facilmente.
      Madalena Canas e Clube Raízes

  3. Idilia Matias dos Santos diz:

    PAPA JOE!! PARABÉNS!! Já costumo ver seus Vídeos no Youtube e postei vários comentarios gostei muito das suas palavras, sou Portuguesa Natural de Chaves e já vi que Papa Joe, andou pelo Norte de Portugal! passou por Braga, que é LINDA!! e viu dançar o Vira , em Coimbra ouviu Fado Oh Coimbra do Mondego e dos Amores que lá tive, em Fátima, assistiu à MISSA, foi a Sintra, ao Oceanário, Museu do Oriente e visitou tantos outros locais da Cidade de Lisboa e ficou encantado. Parabéns, Bárbara, Araujo Costa, Madalena Canas e todos os que se empenharam nesta maravilhosa recepção a PAPA JOE. Receba abraçinhos para todos vós.

    Oh Mar Salgado, Quanto do teu Sal , São Lágrimas de Portugal!!
    TUDO VALE A PENA, SE A ALMA NÃO É PEQUENA !!
    NAÇÃO VALENTE!!!
    De PORTUGALPÁTRIAAMADAcomAMOR

    • Obrigada, Idília, pelas suas palavras. Continuaremos a divulgar o Bairro português de Malaca e a apoiar, como nos for possível, a manutenção das raízes portuguesas no Oriente e onde elas existirem. Continue a acompanhar o nosso trabalho e colabore connosco, se puder. Obrigada,

      Madalena Canas

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