Revolução de Abril foi há 37 anos

Revolução!

“Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
– 0 Fafe telefonou de Cascais, … Lisboa está cercada por tropas…
Refilo, rabugento:
– Hã? (…)
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
– Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
– Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
– Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço:
– Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo). São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! (…)
 A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena … Terra da fraternidade… 0 povo é quem mais ordena…
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas.

De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. 0 Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. 0 Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. 0 Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.

A Maria Keil telefonou. 0 Chico está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! (…)
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos… alguns torturados durante dias e noites sem fim…. não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (…)
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução. “

José Gomes Ferreira
 Poeta Militante III – Viagem do Século Vinte em mim, Lisboa, Moraes Editores, 1983

25 de Abril de 1974

Depois de um longo período de ditadura (48 anos), no qual se salienta a figura de António de Oliveira Salazar, caracterizado pelas restrições à liberdade, pela censura, pela repressão, pela perseguição política que levava à prisão dos que se manifestavam contra o regime, pela existência de exilados políticos, por uma alta emigração motivada pela falta de condições de vida, pela manutenção da guerra colonial, a 25 de Abril de 1974, o MFA (Movimento das Forças Armadas), desencadeou uma “operação militar” que trouxe a revolução à rua e pôs fim à ditadura do Estado Novo, encaminhando o país para um regime democrático.

Esta acção foi preparada pelo “Movimento dos Capitães”, um grupo de jovens militares que formou o MFA.

O sinal para o início das operações foi dado através da rádio, com a canção de Zeca Afonso, “Grândola, vila morena”, difundida no Programa “Limite”, da Rádio Renascença, eram zero horas e vinte e nove minutos.

O primeiro-ministro, Marcello Caetano, refugiou-se no Quartel-General da GNR, no Largo do Carmo, em Lisboa.

Entretanto, a população, ao aperceber-se do que se estava a passar, saiu à rua, em sinal de apoio aos militares. A distribuição de cravos pelos populares, que os soldados colocaram no cano das espingardas, fez desta revolução a “Revolução dos Cravos”.

As tropas, comandadas pelo Capitão Salgueiro Maia, cercaram o Quartel do Carmo e o Governo acabou por se render.

O Governo foi então entregue a uma Junta de Salvação Nacional, presidida pelo General António de Spínola.

Dando cumprimento ao programa do MFA, deu-se início à tomada de medidas com vista à democratização da sociedade portuguesa, restituindo aos cidadãos as liberdades fundamentais, restringidas no tempo da ditadura:

  • Libertação dos presos políticos;
  • Extinção da DGS (ex-PIDE);
  • Extinção da Legião e da MocidadePortuguesa;
  • Abolição da censura:
  • Reconhecimento da liberdade de expressão;
  • Discussão do problema da guerra colonial, que levaria à independência das colónias portuguesas de África.

Com a Revolução de 25 de Abril de 1974 abriu-se o caminho para a liberdade partidária e para a realização das primeiras eleições livres, que viriam a ter lugar a 25 de Abril de 1975. Ainda como consequência da Revolução, em 1976, foi aprovada a 1.ª Constituição democrática.

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