Malaca Os irredutíveis filhos de Albuquerque

Dando continuidade ao nosso interesse em apoiar a manutenção da língua, da cultura e das tradições portuguesas em Malaca, na Malásia, transcrevemos na íntegra o artigo publicado pelo Diário de Notícias, no passado dia 3 de Setembro, sobre os Portugueses de Malaca, no ano em que se comemoram os 500 anos da conquista daquele importante entreposto comercial do Oriente, por Afonso de Albuquerque, e onde os portugueses permaneceram durante 130 anos.

Malaca Os irredutíveis filhos de Albuquerque

por IRENEU TEIXEIRA

Os portugueses chegaram há quinhentos anos a Malaca. A diáspora lusitana subsiste, com inusitado fulgor e entusiasmo, num pequeno bairro piscatório malaio, onde se luta pela manutenção da cultura portuguesa. Hoje e sempre.
  

Na tarde húmida, clima tropical oblige, o taxista, hindu, apercebendo-se dos traços ocidentais do cliente, ensaia a pergunta costumeira: «De onde nos visita?» À resposta pronta segue-se um contentamento desmedido e uma aula de história improvisada. «Então está de visita aos seus familiares no Oriente! Os portugueses daqui são gente boa e muito considerada; as suas festas são do melhor que há em Malaca e, provavelmente, em toda a Malásia. Estão aqui há quinhentos anos e com eles trouxeram muitos escravos negros, que se miscigenaram por cá.» A escassos dez minutos do centro de Malaca, distinguida em 2008 pela UNESCO como Património da Humanidade, alcança-se o bairro português – Portuguese Settlement ou Kampumg Portugis. Uma sensação estranha apodera-se de quem acabara de percorrer meio globo para tomar o pulso a este coração lusitano, encravado num corpo muçulmano. Os últimos raios da época seca são coados por uma névoa persistente, a cidade espraia-se plana, convergindo para o afamado estreito de Malaca. Na linha do horizonte, várias dezenas de navios sulcam as fronteiras dos gigantes Pacífico e Índico mas nem um deles se abeira do porto já cadáver, outrora atulhado de esplendor, agora singelo abrigo de pequenos barcos pesqueiros dos descendentes dos navegadores lusos.A história é antiga: Malaca foi conquistada há exactamente quinhentos anos por Afonso de Albuquerque, em 1511, e administrada por Portugal durante 130 anos, até à chegada dos holandeses, em 1641. Nessa altura, a comunidade portuguesa refugiou-se na selva, em lugares inacessíveis, fugindo da perseguição religiosa imposta pelos holandeses. Por lá sobreviveram até à chegada dos ingleses, que se assenhorearam do comércio, em 1805. Os britânicos viram na comunidade portuguesa, que dominava a língua e estava inserida nos costumes locais, uma boa forma de ligação com os autóctones, levando a comunidade a sair da clandestinidade. A numerosa colónia luso-descendente não abdicou da identidade cultural. Meio milénio após a chegada lusa e 370 anos após a sua partida, todos continuam a afirmar-se, orgulhosamente, portugueses, sem nunca terem pisado solo nacional. A cultura popular portuguesa transmite-se de pais para filhos, por via oral. Contam-se histórias, ensinam-se costumes e tradições, transmite-se «o portugis antigo», que falavam os primeiros colonos, corrompido por séculos de transmissão oral sem um único registo escrito ou resquício de ensino oficial. O fado é cantado e o Vira do Minho bailado por gente jovem. Talvez com mais emoção e com um outro sentir.Ao calcorrear aquelas ruas de casas regularmente baixas, com um pequeno jardim defronte, quase poderíamos deixar-nos enganar pelos chinelos à porta, costume bem malaio. Mas, à entrada, lá estão as imagens religiosas, cruzes e crucifixos, pequenos altares, símbolos de uma religiosidade fervorosa que para aquela comunidade não se distingue do ser português, e é o que os diferencia numa Malásia sobretudo muçulmana, mas também hindu e budista.Percebe-se que existe um esforço contínuo para preservar o lugar, inserido numa área de 12 quilómetros quadrados, ocupado por 118 casas habitadas por cerca de 1300 portugueses, em terra defronte ao mar onde aportaram as naus comandadas por Afonso de Albuquerque. Este Portuguese Settlement é relativamente recente. Os portugueses estavam espalhados pela península malaia quando, no início do século XX, dois padres – Pierre François (francês) e Álvaro Coroado (português) – encontraram este local para os portugueses que viviam no interior e que eram pescadores. Drenaram a região e três famílias começaram o bairro, tendo encorajado outros a seguir-lhes o exemplo, inclusivamente os reformados. Terão iniciado o projecto com dez casas, das quais apenas resta uma, com cem anos (é de 1911), construída pelo padre Martinho Corado. Até aos anos 1940 não se frequentava a escola, a pesca era o destino comum de pais e filhos. A situação alterou-se com a construção de uma escola, o que deu outras saídas profissionais à população. Nos anos 1960, o bairro assistiu a uma considerável expansão, com mais famílias portuguesas a optarem por assentar e a desenvolverem o Kampumg Portugis. Foram ficando e casando entre a comunidade.A garantia de que se manterá português é dada pelo próprio governo malaio que legislou nesse sentido: as casas apenas podem ser vendidas a famílias portuguesas, pelo que a toponímia não mudará. Recebe-nos a rua principal – D’Albuquerque. Depois, Sequeira, Teixeira, Aranjo, Eredia, até que descobrimos um escritor: Emmanuel Godinho Eredia, de quem foi publicada, em 1615, uma história de Malaca. Originalmente, as casas alinhadas num desenho de paralelas e perpendiculares eram de madeira com telhados de colmo e o seu andar único elevava-se acima do solo afastando-se da humidade e da bicharada. Hoje os telhados são de zinco e o espaço vazio que suspendia as casas da terra foi cimentado e emparedado. Às varandas, quando as há, dão-lhes um estilo colonial. Por cima da porta, uma imagem, um objecto católico, por vezes mesmo um minúsculo altar. Lá dentro o mobiliário não abunda, mas não faltam pequenos altares com imagens católicas – Nossa Senhora de Fátima, São Francisco Xavier ou São Pedro -, emolduradas em porcelana, madeira, bronze, rosários, decoradas com flores sempre frescas e perfumadas. O turismo trouxe oportunidades de emprego, mas ainda há quem seja obrigado a partir, na busca de melhores condições. O bairro não pode crescer mais, devido ao número limitado de casas. «Somos entre 1200 e 1300 pessoas na comunidade, um número imutável», diz Michael Banerji, vice-presidente do painel regedor do Portuguese Settlement.Desde 1930 que os portugueses têm os seus líderes, regedores que fazem a ligação da comunidade com o governo malaio. A palavra regedor – funcionário público que representava a administração central junto de cada freguesia – que em Portugal resistiu até 1976, aqui continua a fazer sentido, porque o passado está presente em cada palavra. «Somos portugueses e reconhecidos como tal pelo governo local», diz Banerji. «A força da nossa comunidade reside nas pessoas, numa língua apenas falada, porque por aqui não há livros, dicionários ou escolas de português. A nossa língua vem passando de boca em boca, de geração em geração, há precisamente quinhentos anos, sempre com igual alegria, orgulho e determinação. Este país foi colonizado por muitos povos, mas os portugueses são os mais reconhecidos por manterem as suas tradições.» E lança um alerta: «Que o vosso governo não olhe só para dentro de portas e se lembre de que aqui também é Portugal…»Hoje, por todo o bairro, é evidente a presença portuguesa. Falam com orgulho das suas festas populares, São Pedro e São João, do divertido e «encharcado» Carnaval, festividades que atraem cerca de 75 por cento dos turistas que visitam Malaca por altura daqueles eventos, devidamente documentadas e expostas no famoso – e humilde – Museu Português, local onde o seu curador, Edgar Overee, e restante comunidade tentam, a todo o custo, preservar os seus vestígios culturais e históricos. Recentemente chegado aos 80, Jorge Paulo Pereira, ou Edgar George Paul Overee, é o guardião das chaves do museu desde 1992. O humilde espaço é forrado de símbolos nacionais, fotos e trajes usados em eventos especiais. «Os mais novos não podem perder o sentido das raízes», diz Edgar enquanto folheia as infindáveis páginas do livro de visitas do museu, colorido por tintas de várias nacionalidades. Portugueses, alguns, vários ilustres e muitos curiosos que por cá deixaram o seu testemunho. «Ungua dia tudu genti podi sabeh ki nos teng bida naki, tudu genti beng bisita kum nus jah bota nomi nisti buku» – «Para que um dia todas as pessoas saibam que nós existimos e que nos visitam.»Edgar fala kristang fluente, transmitido pelo aboh. «Aos 9 anos, já falava a nossa língua com o meu avô, que me foi transmitindo tudo o que sabia», diz este antigo polícia em Kuala Lumpur, cidade onde se formou numa escola superior, «porque em Malaca não havia ensino». Ciente das diferenças linguísticas com o português, graceja: «Falamos como os brasileiros: devagar, devagarinho. Vocês falam a 80 km/hora, nós não passamos dos 35…»Edgar recorda a história em jeito de cantilena. «Somos malaios, porque nascemos todos cá e nunca fomos a Portugal, mas somos todos filhos de Santamarias, Rodrigues, Da Costas, Pereiras, Silvas, Gomes ou Teixeiras. Alguns de Afonso de Albuquerque, outros de Vasco da Gama.» Ele próprio é neto de um português de Goa nascido na África do Sul. «São esses os portugueses.» Muitos deles retratados nas paredes caiadas de branco iluminados pelas janelas em frente à igreja cristã.Edward Kennedy, membro activo da associação e presença assídua no museu, recorda como foi conseguido algum do espólio. «Muito do que temos foi-nos oferecido por outros portugueses ou por via das comunidades, em especial a de Macau, com quem mantemos excelentes relações.» Outro Edward, mas este Rodrigues, do Restoran Lisbon, também presente, lembra ainda, com saudades, a passagem fugaz do navio-escola Sagres pelo estreito de Malaca, bem ali ao lado, com especial destaque no museu.O parco espólio – vestes tradicionais, fotografias, bandeiras, quadros – comprova o esquecimento a que têm sido votados desde sempre por sucessivos governantes portugueses, indiferentes à riqueza cultural que a comunidade possa representar. Espelho maior dessa desoladora indiferença encontra-se nas ruas, onde, exceptuando a toponímia, não se encontra nenhum registo em português. A própria designação do bairro, Portuguese Settlement, figura assim, em inglês, por todo o lado. E não é sem um certo tom de humilde humilhação que nos instruem: «Não sabemos escrever nem ler o vosso português, ninguém sabe. Nós só falamos.» Um destino triste que quase foi alterado pela acção do Instituto Camões e pelas mãos de Cátia Bárbara Candeias, num projecto que visava o ensino oficial do português. As aulas eram livres, em plena praça principal, num palco improvisado que suporta as inúmeras festividades dos habitantes. Infelizmente, após escassos oito meses, o projecto viu o seu fim anunciado. Mas não desistiu, mantendo vivo e activo o seu projecto pessoal intitulado «Povos Cruzados».Cátia Bárbara Candeias atravessou, em Setembro de 2009, os oceanos, rumo ao Oriente, fixando-se, durante oito meses, onde os portugueses lançaram âncoras há quinhentos anos. Antiga bolseira do Instituto Camões, foi, por lá, professora de Português e dinamizadora sociocultural. «A Bárbara fez grande trabalho na comunidade. Deu aulas, fez um jornal, movimentou os portugueses de Malaca. O trabalho tem de continuar», avisa Michael Banerji, que a acolheu «como uma filha» em sua casa. Cátia é sócia fundadora da Associação Cultural Korsang di Malaca (coração de Malaca), sendo a coordenadora do projecto «Povos Cruzados – Futuros Possíveis no Bairro Português de Malaca». Desígnio direccionado para o levantamento do património português em Malaca, valor humano, identidade cultural e sentimento de comunidade. Cátia Candeias é, ainda, coordenadora e responsável pela criação do jornal Papia Português, trilingue [português actual, portugis antigo e inglês], disponível online em malaca-portugal.blogspot.com. Os oito meses vividos no Bairro Português ficaram-lhe impregnados na alma e agora, de regresso a Portugal, sente que «a ligação não se pode perder». Nas últimas festas joaninas promoveu, na «sua» Torres Vedras, um certame sobre o Bairro Português de Malaca. «Esti anu tudu jenti di Portugal podi olah pintura di Bairru Portugues di Malaca, ne Feira di San Pedro, ne Torres Vedras» – «Este ano, todas as pessoas podem ver imagens sobre o Bairro Português de Malaca, na Feira de São Pedro, em Torres Vedras», lia-se no elucidativo cartaz.O bairro português de Malaca é uma torre de babel lusitana, com descendentes directos dos navegadores, escravos, portugueses de Goa, de África do Sul, de Macau ou de Moçambique. De mercenários. De toda uma nação sem fronteiras mas unida por uma identidade muito própria. Todos diferentes, mas todos iguais num sentir que comove. A derradeira nostalgia está confinada a um bairro, de ruas simétricas, derradeiro baluarte de uma férrea vontade de preservar um legado, simultaneamente poderoso e frágil: a Comunidade Portuguesa de Malaca. O apelo chega, pois, com desassossego. Os falantes do kristang (cristão-português] – a última variedade de crioulo português dotada de vitalidade no Sudeste Asiático – estão a diminuir até que um dia a voz emudecerá. Para sempre, porque o som do «papiá kristang di Malaca» é um som de saudade. Mutu grandi merseh, Malaca.São Pedro, o rei das festasSão várias, e famosas, as festividades da comunidade portuguesa de Malaca: desde os santos populares, São Pedro e São João, ao pagão Entrudo, passando pelo Natal ou Dia de Portugal (este ano comemorado a 12 de Junho, por ter sido… domingo), a antiga comunidade piscatória sabe «agarrar o seu público» e atrair alguns apoios malaios, ainda que escassos. «Mesmo sem eles, o povo não deixa de festejar», garantiu Michael Banerji.De todas, as mais simbólicas são, provavelmente, as festas em honra de São Pedro e São João, que decorrem durante uma longa e festiva semana – invariavelmente, de 23 a 29 de Junho, dias em que se respira euforia no Portuguese Settlement. As ruas, que convergem para a Praça Portuguesa, são engalanadas com ornamentos e feéricas iluminações. Há música ao som de guitarras, cavaquinhos, pífaros e bombos. Aos milhares, os foliões, de várias raças e distintos credos bailam ao ritmo dos ranchos folclóricos que animam, no palco, o arraial e dão outra vida às barracas de comes e bebes que enxameiam o espaço do evento. «Talvez seja a nossa semana mais animada do ano. Nós, os portugueses, somos conhecidos, em toda a Malásia, pelas nossas festas. São noticiadas nos jornais e, inclusive, nas televisões», informou Michael Banerji, recordando-nos o ponto alto: «O São Pedro é o nosso santo mais popular, padroeiro dos pescadores.» Contrariando o passado piscícola, de ventos e marés, hoje apenas dez por cento da comunidade vive exclusivamente da pesca, sendo um deles o próprio regedor da comunidade, Peter Gomes. Ainda assim, a celebração não perdeu significado e não há quem fique indiferente ao grande marco do festim: a bênção dos barcos dos pescadores locais, efusivamente decorados para o evento, ou resista a acompanhar a procissão de barcos que vai desde a «Famosa» ao Portuguese Settlement. Este ano, o acontecimento revestiu-se de importância especial, por se celebrarem os quinhentos anos da chegada dos portugueses a Malaca.Quanto ao São João, tem naquelas paragens um outro dia oficial, 23 de Junho, provavelmente resquício da tradicional comemoração da véspera que ainda hoje por cá se realiza nessa data. «Em Portugal festeja-se a 24? Tem piada, não fazíamos ideia. Para nós, o São João sempre foi festejado no dia 23 de Junho.» Em Malaca não há manjericos nem alho-porro ou martelos de plástico, mas sobra animação.Já o Entrudo, por lá, faz jus à fama de temporada festiva. «O nosso Carnaval é especial e distintivo. Fazemos uma festa da água em que das 08h00 às 12h00 vale tudo entre os participantes. Depois, e devidamente enxutos, «serve-se comida e bebida por pessoas vestidas com os trajes tradicionais portugueses». O dia anoitece ao som da banda e de rodas gigantes. O governo local encontrou na comunidade um excelente veículo propagandístico da região, um chamariz turístico que lhe vai valendo projecção e lucro. «Nós propomos o programa das festas, temos restaurantes onde servimos várias comidas ditas portuguesas, mas cozinhadas com as especiarias e ingredientes do Oriente», explicou-nos, a propósito, Banerji.Papa Joe, o verdadeiro artistaEmanuel Bosco Lazaroo ou Papa Joe, no mundo artístico, proprietário, há 15 anos, de um restaurante homónimo, pertence ao muito exclusivo grupo daqueles que já visitaram Portugal – Noel Felix e Michael Banerji foram os outros – e pôde contactar directamente com a cultura e as tradições que tanto luta para preservar. Músico nas horas vagas desde 1957, brinda, frequentemente, os seus clientes, entre os quais o presidente de Singapura ou o rei e o primeiro-ministro malaios, com modinhas e canções portuguesas tocadas na sua guitarra de estimação, tendo como cenário uma enorme bandeira portuguesa pintada, ornamento de uma das suas paredes. É, também, o empenhado e apaixonado líder de um dos quatro grupos de danças e cantares populares (ou folclóricos) que já tem actuado perante figuras políticas importantes da Malásia, países vizinhos, sem esquecer os portugueses que, ocasionalmente, os visitam. Recordou, em especial, a visita de Isabel Pires de Lima, então ministra da Cultura, que lhe terá perguntado o que poderia o governo português fazer pela comunidade. Papa Joe não foi ambicioso e terá, simplesmente, mencionado que lhes faltavam trajes populares. «Ela enviou-nos alguns, sabe? Depois quis agradecer, mas já não consegui contactá-la», concluiu. Guarda religiosamente tudo quanto os portugueses de passagem lhe foram legando: bandeiras, cachecóis, CD, revistas, num esforço de se aproximar daquela pátria mãe tão distante.Na sua recente visita de 15 dias a Portugal, que se deveu a dois mecenas e ao apoio da Associação Coração em Malaca, Papa Joe teve, entre outras, uma recepção inesquecível em Freixo de Espada à Cinta, onde visitou as irmãs do padre Joaquim Pintado, natural de Freixo, que fora missionário e pároco no Bairro Português (1948-1975), pessoa a quem deve toda a sua educação e formação como animador cultural. As duas irmãs do padre Pintado, falecido em 1997, Aida e Lurdes, conservam bem viva a memória do irmão e de todo o seu trabalho pelo Oriente. Lurdes viveu vinte anos em Malaca com o irmão e reconheceu «Joe Joe», como chamou a Lazaroo assim que atentou nele. «Há o Papa do Vaticano e a mim chamavam-me o Papa de Malaca», regozijou-se, enquanto rememorava o inconfundível «sabor do bacalhau ou do chouriço». Mas houve algo que muito o amargou. E com razão. «Estive no Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, com casinhas típicas de todo o lado; das antigas colónias, inclusive de Goa e de Macau. Só faltava de Malaca, o que me entristeceu, pois somos portugueses de alma e coração há quinhentos anos.»Dezasseis mil a falarem em papiá kristangA língua é a derradeira bandeira de um povo, porta-voz de uma cultura. No caso da comunidade luso-malaia, a voz portuguesa sobreviveu ao longo de cinco séculos, sob a designação do dialecto crioulo papiá kristang (ou patuá cristão), uma mistura do malaio com o português. Papiá do verbo português papear (falar, tagarelar); kristang do vocábulo cristão. A expressão significa algo como «língua de cristão». Hoje o crioulo de Malaca é falado por cerca de 16 mil pessoas entre a geração mais velha da Malásia Peninsular e de Singapura, sendo a língua-franca no Bairro Português de Malaca e a última variedade do crioulo português dotada de vitalidade em todo o Sudoeste Asiático.Explicar, entretanto, como sobreviveu e se tem mantido este dialecto não é fácil, sobretudo pela escassez de registos. Michael Banerji, vice-regedor do Portuguese Settlement, elucida: «O problema é que em quinhentos anos nunca ninguém escreveu em português, apenas vamos transmitindo a língua, via oral, de pais para filhos. Por isso o nosso português é antigo e pouco tem que ver com o vosso, de agora.» A transmissão aconteceu sempre oralmente, de geração em geração. Por isso a gramática e os aspectos formais da língua sofreram alterações que a afastaram da norma dos séculos XV e XVI, bebendo, por outro lado, influências várias.O kristang já viveu na clandestinidade. Sob o jugo holandês, era uma língua secreta e proibida. «Para comunicarmos sem que nos entendessem», diz Banerji. Ele próprio, descendente de portugueses da Índia, foi um dos que adoptaram o kristang. «Quando cheguei não sabia falar a língua da comunidade e aprendi com a minha mulher, Agnes Martina Fernandes, que fala sempre em português antigo com os seus pais e irmãos.»Recentemente, a comunidade começou a registar palavras que caíam no esquecimento. «Os mais velhos deram uma preciosa contribuição e está a redescobrir-se e ressuscitar-se palavras esquecidas e pouco usadas», conta Banerji. O objectivo era fazer um dicionário de kristang que pudesse funcionar como base de estudo para os mais jovens e, simultaneamente, conservar o património linguístico. A tarefa cumpriu-se exemplarmente e resultou num dicionário kristang-malaio-inglês que se encontra à venda. Infelizmente, ainda sem correspondência ao português moderno.Às vezes é um pouco frustrante para o visitante de Malaca ver apenas alguns registos escritos como Ristorans Portugis e, nas ementas (em inglês), pao e factura, palavra que adoptaram os dos árabes. A oralidade também não é fácil, mesmo se a nossa paciência e entusiasmo acompanharem o soletrar do nosso débito verbal. Com os mais velhos podemos até conversar; com a geração do meio trocar frases, mas com os mais jovens apenas confirmamos o significado de uma ou outra palavra utilizando o inglês como veículo de comunicação. Situação «muito tanto» triste, como diriam os portugueses de Malaca. Para nós, para eles, para o país. Se, por um lado, o seu dialecto é prova da vitalidade da própria língua e, por isso mesmo, deve ser conservado, por outro, lamenta-se que Portugal e seus sucessivos monarcas e governantes tenham manifestado tão pouca preocupação em proteger o seu principal elemento cultural, a língua. É que expressões como muita merseh em vez de obrigado, pedra friu em vez de gelo, pintura em vez de fotografia, ou cavalu di ferru em vez de bicicleta valem bem uma viagem ao outro lado do mundo.Bahasa fala kristangO kristang sobrevive ainda na língua malaia (bahasa) através de alguns vocábulos. Em toda a Malásia, cerca de duzentas palavras, empregues na oralidade e na escrita, tiveram origem no português. Eis alguns exemplos:MALAIO – CRISTÃOsekolah – escoulakebaya – cabaiasepatu – sapatomeja – mesalimau – limaomentega – mantegagarpu – garforoda – rodakereta – careta (carro)bendera – bandeiramarinyu – merinho (inspector)peluru – peloro (pelouro)jendela – janellaLegado português listado pela UNESCODa presença portuguesa na cidade sobrevivem a Igreja de São Paulo e a Porta de Santiago, da Fortaleza de Malaca, «a Famosa», mandada construir por Afonso de Albuquerque. A Igreja de São Paulo era a Igreja de Nossa Senhora do Monte, mandada construir pelo capitão português Duarte Coelho, em 1512. Foi aqui que estiveram sepultados os restos mortais de São Francisco Xavier antes de serem trasladados para Goa. Posteriormente, os holandeses ergueram uma torre em frente da igreja que passou a chamar-se Igreja de São Paulo. No interior das ruínas podem ver-se lápides dos túmulos de soldados portugueses e holandeses com inscrições em latim e em português. Uma das grandes atracções da cidade é o Museu Marítimo de Malaca, instalado numa réplica da nau portuguesa Frol de la Mar (Flor do Mar), que, ao longo de nove anos, participou em vários acontecimentos marcantes no oceano Índico até ao seu naufrágio, em Novembro de 1511. Nela viajava Afonso de Albuquerque de regresso da conquista de Malaca, com um imenso espólio e tesouros para o rei que se perderam ao largo de Sumatra, tornando-a um dos mais míticos tesouros perdidos. A Frol de la Mar jaz, até hoje, no fundo do mar. Em 2008, Malaca foi declarada Património Mundial pela UNESCO. 

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Uma resposta a Malaca Os irredutíveis filhos de Albuquerque

  1. Luisa Timóteo diz:

    Obrigada ao Clube Raízes e sua coordenadora Professora Madalena Canas, pelo apoio sempre prestado à causa de Malaca, que em comum não deixamos morrer.

    Bem hajam e bom Ano escolar que se aproxima.

    Um abraço

    Luisa Timóteo
    Presidente

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